FRANÇA - Mont Saint-Michel (primeira experiência de carro na Europa)

Quando fomos morar em Paris por um ano, em 2010-2011, tínhamos o desejo de viajar muito pela Europa. Já estávamos há quase dois meses e era grande a vontade de dar uma fugidinha de Paris em um final de semana, para começar a explorar a "vizinhança". Um dos problemas era escolher o destino - as opções são muitas!!! 

Algumas vezes, quando chegava a sexta-feira, a gente se olhava e via que estava em cima da hora pra resolver algo. Até que finalmente tomamos uma atitude: alugamos um carro por um final de semana. Fuxicando pela internet, vimos uma promoção de locação de carro por 3 dias no final de semana. Preenchemos o cadastro e, quase num susto, decidimos viajar. Então só precisávamos decidir o destino. 

Pensamos em três opções: o Vale do Loire; as praias do desembarque, na Normandia; ou Mont Saint-Michel. Queríamos os três lugares, mas consultando alguns colegas franceses de meu curso, nos desaconselharam "tentar" tudo isso em apenas 3 dias... Desejo de brasileiro de querer fazer caber tudo em uma única viagem, eita nós!! Daí que resolvemos ir a Mont Saint-Michel. 

A gente nunca tinha ouvido falar em Mont Saint-Michel, desculpe aí... Foi uma amiga brasileira que estava de férias em Paris e que veio nos visitar pouco antes de nossa decisão que nos falou deste lugar mágico. Ficamos curiosos depois da visita (ela estava lamentando que não iria conseguir ir a Saint-Michel durante suas férias na França...) e fomos dar uma pesquisada na internet, descobrimos que é o segundo lugar mais visitado da França, depois de Paris! U-la-lá!! Logo as primeiras imagens já nos fascinaram.

Esta curta viagem começou cheia de emoções. Sobrevivemos a todas então só restam histórias bonitas pra contar.

Aline foi sozinha de metrô buscar o carro. Nunca, em trocentos anos de direção no Brasil, foi parada pela polícia. E em Paris, dirigindo há apenas 5 minutos, se viu perseguida pelo carro da guarda municipal fazendo sinal para parar. Tranquila e sem pânico, encostou o carro meio que rindo e pensando "ai, ai, lá vamos nós!". Entre várias coisas que o policial - muito gentil e educado  - falou, foi "feu rouge" (ou algo que o valha), o que aos nossos ouvidos brasileiros soa como "ferrugem".  "Será que tem alguma ferrugem na lataria do carro!?!?!?!". Alguns segundos depois o botãozinho do francês foi ligado e ficou mais claro: rouge=vermelho... sinal vermelho!! Só podia ser... e era. 

Com cara de constrangida e enquanto mostrava passaporte, licença internacional para dirigir, carteira de habilitação e recibo de aluguel do carro, foi explicando, como dava, que era a primeira vez que dirigia em Paris e que havia acabado de pegar o carro na locadora. Convencido, o guardinha foi super gente fina e só falou para prestar mais atenção - "Bien sûr, monsieur!!!" (Com certeza, senhor!!). E o segredo todo é esse, atenção, não dá pra ter pressa no trânsito em Paris, pois pedestres SEMPRE tem preferência, assim como as bicicletas. Então é preciso ter vários pares de olhos atentos em todas as direções. Outra coisa é que o sinal amarelo praticamente não existe, entre o verde e o vermelho, tem uma piscadela amarela, então não é como no Brasil - "ah, ainda dá tempo..." - não dá.

Esta foi a PRIMEIRA "emoção do dia": 


Chegando em nosso apê, carregamos o carro, um Panda, da Fiat, super compacto e uma gracinha. Fizemos uma ginástica pra ajeitar a cadeirinha de Joaquim, programamos o GPS (era a primeira vez que a gente via e usava um na vida e a mocinha da agência não fez muita questão de explicar como funcionava...) e saímos pras bandas de Mont Saint-Michel sem saber exatamente onde dormiríamos. 

Bem, depois do carro carregado, saímos do 15º arroundissement, onde morávamos. Andamos quase dois quilômetros por Paris, fizemos algumas curvas, passamos pela pela ponte de Mirabeau, sobre o rio Sena, até que dois carros começaram a buzinar pra gente num semáforo. Aline ficou indignada: "que foi agora?! O sinal tá fechado!". O sinal abriu e um cara passou fazendo sinal. Desci pra ver a traseira do carro... sei lá, vai que ficou uma porta meio aberta? Mas qual o quê: era "apenas" o notebook que eu havia deixado sem capa nem mochila em cima do carro, enquanto ajeitava a bagagem... Jisuis... toda minha vida ali, tomando um ar puro sob o céu de Paris... santas borrachinhas que não deixam o notebook ficar dançando em cima da mesa, neste caso, em cima do carro! Essa foi apenas a SEGUNDA "emoção do dia".

Havíamos programado o GPS pra fazer o caminho mais curto, o que não corresponde necessariamente ao mais rápido, já que pega estradas secundárias e com limite de velocidade menor. Adoramos! Fomos sendo guiados pra fora de Paris e de repente, a TERCEIRA "emoção do dia": demos de cara com o Palácio de Versailles, assim, de repente, sem esperar. A gente esteve lá fazia poucas semanas, mas não esperava encontrá-lo assim, sem querer..rsrs Passamos na frente e contornamos a lateral dos jardins, super radiantes.



O GPS foi nos levando e, de tempos em tempos, mandava a gente entrar numas ruinhas secundárias da estrada. Daí descobríamos umas vilas pequenas e simpáticas de uma França diferente do que conhecemos até hoje. Várias emoções no dia. 



Ah, os primeiros campos amarelos de canola...
Seguimos caminho, a viagem foi ficando longa, então programamos o GPS pra fazer o caminho mais rápido, o que significaria não entrar em tantas ruelas. Mas é impossível... O caminho mais adiante estava repleto de pequenas cidades e vilas com casas de pedras, lindas demais.


No caminho fui lendo para nós informações sobre o Mont Saint-Michel (o motivo de eu ter deixado o notebook à mão...). Lemos um relato lindo e emocionante de uma pessoa que visitou Saint-Michel e ficamos conversando sobre como essa viagem era simbólica pra nós também.
Na estrada tinha uma placa. E no alto, uma cidade: Ville de Domfront.


Já na estrada, ainda não sabíamos exatamente onde domiríamos àquela noite - e chegaríamos a noite, pois a viagem já estava tomando mais horas do que planejamos. Como Saint-Michel é pequenina e os hotéis costumam estar lotados, vimos recomendações de hospedagem em PORTONSON, uma vila próxima. Joaquim começou a ficar cansado das quase 7 horas no carro (a volta levou 3 horas apenas...). 

Em algum lugar, num relato de viagem, alguém falou de uma cidadezinha legal, AVRANCHES, e resolvemos, quase no trevo, dormir lá. Chegamos na cidade, sem conhecer nada, e começamos a procurar um Ibis, por ter ideia de preço e padrão. Por fim, ficava fora da cidade e perguntamos em um hotel mais no centro o valor da diária: 114 euros - sem café. Ahhhhhh!!! Ao lado, outro hotel que achamos meio chulézinho, mas... Perguntamos lá: 48 euros! Pedimos pra ver o quarto: todo limpinho, espaçoso e colocariam berço pra bebê. Nos instalamos e resolvemos ficar as duas noites. Mais uma emoção no dia: ficando duas noites, cada uma passava a ser 40 euros por noite. Ueba!

Ficamos então no Hotel Patton, em Avranches. Hotel pequeno, bem aconchegante, com berço para bebê, cadeirão confortável no café da manhã, aqueceram sopa pro Joaquim, guardaram coisas na geladeira (não tinha frigobar no quarto), cama confortável, banheira e chuveiro, tudo muito limpo. Ficamos no segundo andar (tem 3), com elevador. O que mais alguém viajando com um bebê de 11 meses poderia querer?

Na manhã seguinte, nos arrumamos, tomamos um café da manhã super gostoso (6 euros pra cada) e tinha até itens pro Joaquim, como banana, maça, uns potinhos de um purê delicioso e suave de maçã, iogurte e, claro, baguete.

Saímos com nosso super GPS. De Avranches a Saint-Michel são aproximadamente 30 km. J
á na estrada avistamos de surpresa le Mont Saint-Michel. Aliás, ver o Monte de longe é possível de diversos pontos... quando estávamos indo, faltavam ainda mais de 10 Km para chegar e já estávamos sendo acompanhados pela imponente presença da edificação, que ia ficando cada vez maior e mais impressionante. É de emocionar. 



Lindo demais! Quanto mais nos aproximávamos, mais fotos queríamos tirar. Foi fantástico. 



Estacionamos o carro e enquanto nos arrumávamos pra desbravar o monte, um casal mais adiante estava ajeitando o bebê no sling nas costas. Achamos a idéia ótima e amarramos Joaquim pela primeira vez nas costas (super aprovado!). Pois se tem uma coisa que não é nada prática em Saint-Michel é carrinho de bebê, pois tem muitas escadas o tempo todo. Joaquim amarrado, todos prontos e lá fomos nós, chegando pouco a pouco perto da maravilha.




Entramos nas muralhas, passamos as casinhas e poucas ruas medievais, fotos, fotos, paisagens fantásticas. 



No canto esquerdo se vê a placa de La Mère Poulard que ser um omelete famoso há séculos. Não fomos... turístico demais pro nosso perfil.
Logo na entrada, encontramos o vilarejo que consiste em lojas e restaurantes, comércio que provavelmente já existia na época de origem, mas provavelmente, ao invés de souvenirs e comida típica, eram vendidos tripa de porco e pelego de ovelha. Soubemos que mais ou menos 40 pessoas ainda moram dentro das muralhas, e há também alguns hotéis ali.
Dá pra ver informações aqui, no site oficial.

Joaquim dormiu, como sempre. E bem aconchegado às costas da mamãe. Diversos casais com filhos e com bebês andavam por lá, alguns de sling, outros em cangurus. Sobe, sobe, sobe mais... De repente você lembra que tudo aquilo começou a ser construído em 708, há mais de 1.300 anos atrás. 


Muita história... e a paisagem que se vê de lá de cima é incrível.


Muitas coisas sobre o lugar impressionam: lá ocorre uma das marés mais altas do mundo. Na maré baixa, a distância entre o Monte e o mar chega a 18km. Dizem que é por isto que a cidadela murada nunca foi invadida por inimigos e por isto ela foi mantida por todos estes séculos intacta.
Informações no audioguia (não é celular, não!)
 

Um dos programas é caminhar pela areia. Mas somente pessoas acompanhadas por guias é que podem ir.
Não tivemos sorte em ver o show da maré. Consultando a tábua de marés, pode-se verificar os dias onde se vê o galopar veloz da maré subindo e descendo, cobrindo e descobrindo esse areal todo.

Mont Saint-Michel é um local de peregrinação religiosa. Além do pequeno vilarejo intramuros, existe a abadia que ocupa a maior parte do monte. Paga-se pra visitar. E pague! É maravilhoso conhecer as diversas instalações. Com um audioguia, o passeio fica ainda mais bacana. E é bom preparar suas pernas. Escadas não faltam!




Ao chegarmos na igreja, vimos que uma missa estava em andamento. Todos os dias, às 12h15 tem missa aberta a todos. Quando entramos, monges e freiras estavam entoando um cântico gregoriano que ressoava naquela imensidão. É indescritível a emoção de ouvir a música ressoando pelas paredes de pedra, intercalada com silêncios, enquanto a luz do sol entra pelos vitrais marcando o ar esfumaçado. A fala pausada do padre, toda movimentação do clero... fantástico, repleto da presença serena de Deus. Foi um momento mágico para cada um de nós que não esqueceremos jamais!



Dentro da igreja.
Detalhes das gárgulas da abadia.
Conhecemos Saint-Michel num dia bom, o movimento de turistas era contido, não estava abarrotado de gente, pudemos caminhar tranquilamente nas ruinhas estreitas. Com exceção dos grupos de excursão, que quando chegavam iam dominando todos os espaços, e nós fugíamos rapidinho.
No "fogão" da cozinha da abadia.

No claustro.
São muitos ambientes, cheios de tempo e história. Janelas e portas, luzes e sombras. Uma viagem no tempo.

Em uma espécie de galeria de arte sacra, de memória arquitetônica do local, encontramos uma cópia em tamanho idêntico ao arcanjo São Miguel que fica no topo da abadia.
Medieval?

Um flagrante do tempo. Olhando pro alto, pro Saint-Michel, vimos um avião cruzando o céu imensamente azul.
O dia foi maravilhoso. Perambulamos mais um pouco pela vila, pra mais muitas fotos. Alguns museus nós não visitamos, tudo em torno dos temas medievais e religiosos. 


Olha São Miguel lá no alto!
Tínhamos lido também sobre outra cidade, alguns quilômetros adiante, Saint Malo, e resolvemos dirigir até lá pra aproveitar o resto do dia. 



Chegando lá, logo procuramos a cidade antiga, murada. Andamos pelas muralhas e ruas da cidade medieval e vimos o dia findando.




É possível dar a volta inteira na cidade por cima das muralhas. Bela vista da cidade e do mar.

 



Também circulamos pelas ruelas e aproveitamos pra fazer um lanchinho. Saint-Malo está na Alta Normandia e Avranches na Baixa Normandia. Saint-Michel tá li, pelo meio. A região é conhecida pela produção de cidra e suas comidas típicas. Os detalhes aqui e ali sempre nos encantamm


Já escuro, voltamos os mais ou menos 70 km até nosso hotel. Ainda demos uma voltinha por Avranches pra comer uma pizza. Domingo a noite, clima silencioso por toda parte.



Na manhã seguinte, demos uma volta por Avranches, mais fotos, muito frio. O lugar é bonito, mas depois de Saint-Michel, tudo fica ofuscado.


Dia amanhecendo. Vista da janela do quarto do hotel.

Belíssima catedral de Avranches.

As gárgulas são fascinantes.

Ruínas de um castelo.
 Há um parque bem simpático em Avranches de onde se tem uma vista fantástica de Mont Saint-Michel.


Prontos pra voltar a Paris, ainda tivemos mais uma emoção.

Outra aventura em relação ao carro foi abastecer. Primeiro porque teríamos que descobrir como se faz, uma vez que aqui os postos são self-service, no melhor estilo "se vira, camarada!!". Pegamos o carro na locadora e saímos de Paris com o tanque cheio. Fizemos todo o passeio e no domingo, antes de pegar a estrada de volta o marcador indicava que estava entrando na reserva, até aí estávamos bem tranquilos. O stress começou quando, saindo de Avranches, paramos num posto e a bomba estava com um aviso hors de service (fora de serviço). Pensamos que seria melhor voltar e encontrar um posto na cidade, pois sabe-se lá a que distância seria o próximo posto na estrada. Voltamos. Estivemos em três postos e nada... nos ocorreu que poderia ter algo a ver com a tal greve e crise que a França estava enfrentando, e aí?!?!?! 

Continuamos nossa busca... graças a Deus achamos a essence 95 sans plumb (gasolina 95 sem chumbo), que era o que precisávamos. Enchemos o tanque e pegamos a estrada. 

A viagem de volta foi tranquila, para nosso alívio os pedágios funcionam como no Brasil, com uma pessoinha para receber o dinheiro. 

Mas outro stress começou chegando em Paris. Nós teríamos que devolver o carro com o tanque cheio, para não pagar o absurdo que eles cobram na locadora pelo litro da gasolina. Fomos ao posto mais próximo de casa, dando a viagem por encerrada, era só encher o tanque e pronto... ledo engano! Hors de service... foi o aviso que lemos em outros tantos postos que encontramos... até que encontramos um posto com combustível, nem tão longe de casa... ufa! Mas como ainda não tínhamos pego a manha de encher o tanque, ao sair do posto vimos que o marcador indicava o tanque "quase" cheio, mas não totalmente... E não é que o carinha da locadora, na hora da devolução, queria cobrar a diferença!?! 

Contra-argumentamos dizendo que foi muito difícil encontrar combustível, que tivemos que rodar muito e coisa e tal... por fim, ele foi camarada e não cobrou. Mas tivemos uma noção de como a situação estava crítica quando, enquanto aguardávamos para fazer a devolução do carro, vimos um cara saindo meio indignado porque estava alugando um carro com o tanque quase vazio e não tinha a mínima ideia de onde encontraria combustível... e o mocinho da agência não sabia o que dizer... 

Depois lemos que quase dois mil postos na França estavam sem combustível naqueles dias. As refinarias de petróleo aderiram à grave contra a reforma no sistema de aposentadoria que estava sofrendo uma reforma no país. O caos estava feito. Saímos respirando aliviados por termos devolvido o carro.

A viagem de ida de Paris a Avranches, que levou 7 horas de duração, levou apenas 3 horas na volta. Optamos pela autoroute (rodovia). Estradas ótimas, com pedágio, pagamos 4 pedágios no trecho que fizemos, total de mais ou menos 13,00 euros. Na verdade as autoroutes ganham em número de pistas, e limite maior de velocidade, porque em termos de qualidade de estrada, as secundárias todas eram muito boas também e muitos trechos em pista dupla. Dirigir na estrada aqui na França, e pelo que ouvimos falar, em toda a Europa, é muito tranquilo. Já em Paris, a coisa muda de figura.

Depois deste final de semana, nossas viagens podem ser contadas em "antes do GPS" e "depois do GPS". É a coisinha mais maravilhosa do mundo! Ele nos dá opções como pagar pedágio ou não, caminho mais rápido ou mais curto, e ainda avisa que o mais curto não é necessariamente o mais rápido, nem o mais econômico... foi essa nossa opção na ida, e amamos! Apesar da sensação de estarmos sendo vigiados o tempo todo, afinal, por mais que nos perdêssemos o tal GPS sempre sabia dizer onde a gente estava, a tranquilidade de ter "alguém" nos indicando o caminho o tempo vale cada centavo de euro pago! Nem cogitaremos alugar carro por aqui sem GPS!

E pra finalizar, antes de saírmos do Brasil, pesquisamos sobre carteira de habilitação para dirigir na Europa. Em alguns lugares dizia que é necessária a Permissão Internacional para Dirigir (PID), em outros dizia que a Habilitação brasileira é suficiente. Como Aline precisou renovar a carteira antes de vir para cá, resolveu fazer a PID também. Quando foi buscar o carro na locadora, levou a Permissão Internacional mas quando mostrou o documento, a mocinha pediu o documento do país de origem... voi lá!

O carro que alugamos era um xuxuzinho, um Panda da Fiat, bem pequeninho e super gostoso de dirigir. Pegamos a opção mais barata, mas o carro era completo, com direção hidráulica, vidros elétricos, ar condicionado, etc. Não sei se aqui existem carros mais básicos que isso... A locação para três dias ficaria em 114,00 euros, mas a cadeirinha para o Joaquim é um opcional pago a parte (28,00 euros) e o GPS também (10,00 euros por dia), e ainda tem impostos e seguro opcional, combustível, pedágios, etc. Ou seja, alugar um carro não é das coisas mais baratas por aqui, mas é muuuuuito bom! É ótimo ter a liberdade de ir e vir quando a gente bem entender, e parar quando e onde quiser...

A viagem a Mont Saint-Michel foi uma decisão repentina e muito acertada. Foi uma viagem maravilhosa de carro, nossa estreia pelas estradas europeias.

Donc, voilá! C'est ça. C'est fini.

outubro de 2010.

Budapeste

Tentamos lembrar quando foi a primeira vez que Budapeste foi citada em algum dos nossos planos de viagem (sonhar e planejar viagens é meio que uma mania que a gente tem, algumas acabam acontecendo...). Concluímos que foi em algum dia remoto onde decidimos que um dia faríamos uma viagem ao leste europeu. Mas a coisa parou por aí. Nunca tínhamos pesquisado realmente, procurado saber mais sobre esta cidade.

Quando moramos em Paris, entre 2010 e 2011 (por onze meses), tínhamos por objetivo aproveitar pra viajar bastante pela Europa. Reservamos grana pra isso, pois consideramos um boa oportunidade ter como base uma cidade européia como ponto de partida pra o resto do continente. Já estávamos em Paris há dois meses e ainda não havíamos tirado os pés do solo francês. Motivo: organização. De repente, numa segunda-feira a gente se olhava e dizia: vamos viajar no final de semana? Mas daí as passagens aéreas já estavam mais caras do que estávamos dispostos / podendo pagar.

Então um dia, antes que o tempo nos escoasse pelas mãos, resolvemos comprar as passagens para "A Viagem" de novembro (de 2010). Abrimos o site da E-dreams, de passagens low cost, e um mapa da Europa, que compramos na banca de revistas. Sem muitos critérios específicos fomos elegendo cidades no mapa e procurando preços na internet. Tipo: "moço, quanto chiclete dá pra comprar com estas moedas?". Olhando para o mapa da Europa, sonhamos com alguns países e cidades que por vezes nem ao certo sabíamos onde ficavam. "Ah, esse país fica ao lado desse outro! Puxa!"

Budapeste tinha um bom preço para o aéreo + hotel. E foi assim que a cidade voltou aos nossos planos de viagem. Faltando uma semana para embarcarmos, resolvemos pesquisar, afinal chegar numa cidade sem saber nada sobre ela é desperdiçar tempo e oportunidades! O Santo Google nos deu vários informações; a Lu, do blog Aventuras de uma família na Europa, também nos deu dicas bem legais e nos indicou o blog da Liana (Ela é americana... da América do Sul!) com ricas informações históricas sobre a cidade. Sabendo um pouco mais sobre nosso destino, começamos nossa aventura na sexta-feira pela manhã (05 de novembro de 2010), nosso vôo era às 13h e precisávamos descobrir como chegar no aeroporto de Orly, em Paris, de trem.

Não foi difícil, descobrimos o itinerário na internet, site da RATP, e assim deu para calcular o tempo, quase 1 hora para chegar lá desde nossa casa no 15º arrondissement de Paris. No aeroporto andamos um bocado até encontrar os guichês da Easy Jet, eles ficam numa parte meio isolada do aeroporto, mas quem tem boca vai a Roma, no caso à Easy Jet! Embarque tranquilo, vôo tranquilo. Ah, a Easy Jet não oferece lanchinho no vôo, como estamos acostumados no Brasil, aqui eles vendem lanches, bebidas, roupas, acessórios... tudo e mais um pouco. Tem um catálogo à disposição dos passageiros e a gente pede e paga pelo que quer.


No trem para o aeroporto em Paris

No avião para Budapeste

Chegamos em Budapeste às 15h30 e já tínhamos decidido ir de táxi para o hotel. Isso não é muito comum para os nossos padrões, normalmente preferimos pegar transporte público, ônibus ou metrô e caminhar mais um tanto para ir para o hotel quando chegamos numa cidade nova. Por duas razões: economia e oportunidade de já ir aprendendo como as coisas funcionam. Mas com um bebê a gente repensa algumas coisas... he he... e já tínhamos visto que o táxi não era assim tão caro.

Fizemos um trajeto de mais ou menos 45 minutos confortavelmente instalados no carro e cada qual vidrado na paisagem do lado de fora de sua janela, impressionados com o pôr-do-sol, às 15h30!, e com a cidade que aos poucos ia se revelando. Prédios lindos, antiquíssimos e impressionantes. Quando nos aproximamos do Rio Danúbio foi emocionante, estávamos do lado de Peste, e nosso hotel era na antiga Buda, de forma que nós não apenas avistamos o Danúbio, como fomos logo atravessando sua extensão através da ponte mais antiga da cidade! Memorável...


Ponte das Correntes, com Peste ao fundo


Castelo de Buda, um dos principais "postais" da cidade

Nosso hotel ficava pertinho da Ponte das Correntes (ou Széchenyi lánchid), que foi a primeira a ser construída ligando Buda e Óbuda à Peste. Estávamos super bem localizados, e o hotel era bem gostosinho. Achamos o atendimento eficiente, apesar de frio, os recepcionistas não eram de muito papo não. Quando chegamos, tentamos a comunicação primeiro em francês, não rolou, depois em espanhol, não rolou, até que meu parco inglês resolveu ressuscitar e eu virei a porta-voz da família. Ismael só agradecia em alemão! Eles providenciaram berço para Joaquim e sempre foram muito solícitos em nos deixar usar o microondas na cozinha para aquecer as sopinhas. Ah, e tinha frigobar no quarto, enchemos de sopinha caseira! O nome do hotel: Carlton.

Sobre a língua local, foi muito estranho não reconhecer nenhuma palavra! Até para olhar o mapa tínhamos dificuldades. Mas conseguimos nos virar bem, com meu inglês fraquinho. Ismael que ficava na maior agonia, porque ele adora interagir com o povo mas não conseguia...

Estávamos hospedados a 1 minuto a pé da Ponte das Correntes, que atravessamos zilhões de vezes durante todo o final de semana. Fizemos praticamente todos os passeios a pezão, mesmo quando olhávamos no mapa e achávamos que era um pouco longe, logo pensávamos que caminhando a gente poderia ver mais coisas pelo caminho e fotografar e coisa e tal, e assim foi. Primeira pernada foi logo na tarde/noite em que chegamos. Atravessamos a ponte e, seguindo a dica do recepcionista do hotel, fomos ver a tal Feira de Natal que estava começando naquele dia, no centro de Peste. Só para atravessar a ponte levamos quase meia hora, de tanto que parávamos para admirar a vista da cidade, os prédios históricos iluminados e fotograr muito. Quanto mais andávamos mais empolgados ficávamos com a beleza de Budapeste.

A Feira estava lindona, foi bem legal começar o final de semana assim, pois ela reunia várias coisas típicas e muitas coisas lindas. Jantamos por lá mesmo, depois de muita dificuldade para conseguir nos familiarizar com a moeda local, o forint (1 euro = 250 forint = 2,40 reais, na época), aliás passamos o findi todinho fazendo nó na cabeça para calcular o preço das coisas. E concluímos que Budapeste é uma cidade cara, embora tivéssemos lido o contrário. Na verdade concluímos isso porque passamos a calcular as coisas em reais, quando pensávamos em euro víamos que os preços estavam compatíveis com Paris, ou seja, caro!

No sábado, fomos presenteados com um sol lindo, coisa que há muitos dias não víamos em Paris. E percebemos que o dia clareia mais cedo em Budapeste. Vimos o sol nascendo às 7h. 

Começamos o dia visitando a Bazilika Szt. István, ou igreja de São Estevão. Uma das mais bonitas que já conhecemos!! Seu interior é de tirar o fôlego. Depois decidimos comprar tickets para o Sightseeing, ônibus turístico que passa pelos principais pontos da cidade e que permite saltar e pegar outro no decorrer de 24 horas. Os tickets incluiam também um passeio de barco pelo Danúbio. Acho que o ônibus é um jeito legal de entender como a cidade se distribui, as distâncias entre os pontos, etc. Nós fizemos o passeio completo e elegemos lugares para voltar depois. O único inconveniente é que o ônibus faz muitas paradas, tornando o passeio bem demorado. 

Depois do bus e do barco, foi a vez de bater perna novamente. Ficamos cerca de duas horas explorando a cidade no lado de Peste. Vimos o Mercado Central, um prédio magnífico, mas que infelizmente estava fechado; fomos caminhando pela Váci, que é um calçadão bem animado, com muito comércio, algumas praças e monumentos; passamos novamente pela feira de Natal e continuamos caminhando até o prédio do Parlamento, que é um espetáculo à parte. Não cansamos de fotografá-lo durante todo o dia, de vários pontos da cidade, ele é como um imã que atrai olhares e lentes por ser tão lindo. Há uma visita guiada para conhecê-lo por dentro, mas nós não a fizemos.

Interior da Igreja de Szt. István, ou São Estevão

Rio Danúbio à noite

Cidade vista da Citadella. Buda à esquerda e Peste à direita

Mercado Central

Prédio do Parlamento

Domingo, ao contrário do dia anterior, amanheceu e permaneceu cinza, fazendo jus ao clima outonal, mas pelo menos não choveu, deu para passar o dia inteiro batendo perna novamente. Começamos pelo lado de Buda. Saindo do hotel subimos a íngreme colina, empurrando o carrinho do Joaquim escada acima, até chegar no Mátyás Templon, ou igreja de Mathias. Um conjunto arquitetônico deslumbrante, com muitas torres, mosaicos, elementos decorativos, estátuas, etc. Além da construção em si, com ares medievais, que impressiona muito, lá de cima tem-se uma vista maravilhosa do Rio Danúbio e Peste. Ficamos um tempão admirando e fotografando tudo. Próximo dali está o Castelo de Buda, a construção imponente que mais se vê quando estamos às margens do Danúbio do lado de Peste. O Castelo abriga um museu com obras de artistas húngaros, moedas e relíquias, nós só conhecemos a parte externa. Dentre as coisas que nos chamaram bastante a atenção destaca-se uma fonte com a estátua de três crianças brincando com um peixe, linda!; e uma senhorinha tocando realejo perto do Castelo, ela era muito fofa, e aquele musiquinha enchendo o ar imprimia algo de surreal ao momento.

Mátyás Templon

Parlamento visto da Igreja Mathias

A empolgação diante da beleza da Igreja Mathias

A senhorinha e o realejo


Detalhe da fonte no Castelo de Buda

De lá, atravessamos a Ponte das Correntes e seguimos, à pezito, pela Avenida Andrássy, até a Praça dos Heróis. É uma pernada e tanto, mas vale a pena, pois passamos pela Ópera, e por diversas casas e palacetes que marcam uma época muito próspera da cidade, anterior ao comunismo. Nesta avenida também está o monumento da Cortina de Ferro, bem interessante. Junto à Praça dos Heróis está o Museu de Belas Artes onde havia uma exposição com obras de Bottero e Klimt, entre outras, os ingressos para nós dois sairia quase R$ 70,00, e ainda tinha tanto para ver da cidade... e Bottero e Klimt nem são húngaros... resolvemos aproveitar a estrutura do Museu: café, fraldário, toilettes, calorzinho, he he... e continuar nossa jornada.


Praça dos Heróis

Ópera


Monumento da Cortina de Ferro
Caminhando na Av. Andrássy

Av. Andrássy


Atrás da Praça dos Heróis está um lugar encantador e que nos foi uma grata surpresa, pois não sabíamos direito o que nos esperava. Trata-se do Parque Municipal Varosliget, uma grande área verde onde, entre outras coisas, está o Castelo de Vajdahunyad. Nós não sabíamos de sua existência, e foi super gostoso descobrir essa maravilha. O Castelo é lindo e junto a ele tem uma capela, e outra construção impressionante que abriga o Museu da Agricultura, além da estátua de Anonymus, uma homenagem ao autor, até hoje desconhecido, que foi o primerio a transpor a história da Hungria para uma obra literária. A estátua é linda e de dar arrepios!


Castelo de Vajdahunyad

Castelo de Vajdahunyad

Estátua de Anonymus

Caminhamos um pouco mais pelo parque enquanto tomávamos um vinho quente e sentamos à beira do lago para dar o lanchinho do Joaquim. Ele curtiu olhar os patinhos enquanto degustava sua papinha de fruta e víamos as luzes da cidade acendendo.

De lá pegamos um metrô, (o primeiro metrô da Europa Continental foi construído em Budapeste), e foi bem pitoresco, pois as estações são super antigas, algumas delas pareciam locação de filme de época. Descemos perto do calçadão da Váci e fomos fechar o dia na Feira de Natal, compramos uns enfeitinhos lindos entre outras coisinhas.

Última manhã em Budapeste, segunda-feira amanheceu chovendo. Que bom que foi no final! Não nos animamos a sair do hotel. Curtimos bem o café da manhã e ficamos de preguicinha até a hora de ir para o aeroporto.

Nós amamos conhecer Budapeste. Saímos muito com a sensação de quero mais, pois muita coisa do que tínhamos pesquisado não conseguimos ver ou fazer. Fica a pergunta, será que com tanto lugar no mundo para conhecer um dia ainda voltaremos à Budapeste? Se rolar vamos querer curtir os banhos termais, famosíssimos na cidade; queremos ver o Memento Parque, com estátuas do tempo do comunismo; vamos conhecer o prédio do Parlamento por dentro e vamos pra lá na primavera ou verão, para ver a cidade com outras cores.

Ah, e agora eu PRECISO ler o livro do Chico: Budapeste!