Vale do Loire de bicicleta - dia 03 de 05

Na noite de ontem ficamos novamente em um Chambre d'hôte, de Bruno e Cristelle, em Tour-en-Sologne. Ele era mais simples que o anterior. Há um sistema de classificação deste tipo de hospedagem, assim como os hotéis e suas estrelas. Isto está ligado a certos confortos, como ter TV no quarto, piscina e sei lá mais o quê. O preço, evidentemente, também se diferencia.

Se na primeira noite estávamos dentro de uma pequena cidade, na segunda era quase uma região rural, mas tão próxima à cidade de Bracieux que pude ir caminhando noite passada, andar o centro todo da cidade procurando uma farmácia ou mercadinho pra comprar um desodorante (tudo fechado às 20h30 embora ainda fosse dia claro) e voltar pra casa - ida, circulada e volta em pouco mais de 30 minutos.

Mercado Velho em Bracieux - depois das 20h, apenas alguns restaurantes abertos.

Nesta segunda noite, acabamos ficando nos dois quartos que Bruno e Cristelle possuem, pois eles não tinham cama extra pra pôr em um quarto, assim nos dividimos. Mas tudo bem: o preço era o mesmo já pago. Ah, aliás, estas duas noites as reservas e pagamentos foram feitos pelo Airbnb, com a vantagem de além de pagar no cartão de crédito, conseguir parcelar em até 3 vezes. Em geral, em Chambres d'hôte, o pagamento é em espécie e diretamente com os hospedeiros.

Bem, assim como demos um nervoso em Elisabeth e Allan, na primeira noite, demorando pra chegar, na segunda noite também demos um nervoso em Cristelle e Bruno, mas por outro motivo. Deixamos as bicicletas do lado de fora da casa, numa área que não era possível ver da estrada. Considerando ser interior, a vida é bem mais sossegada quanto a roubos. Mas a gente de cidade grande se torna muito desconfiado. Então já era cerca de meia-noite quando resolvi ir colocar a tranca nas bicicletas. A casa já toda escura, os anfitriões dormiam, Aline e Quim dormiam em um quarto, e saí do meu pra me tranquilizar quanto as bicis. Eis que as bicicletas estavam justo na janela do quarto de nossos anfitriões. E, embora eu estivesse tentando agir quietinho, fui fazendo barulhos de ajeitar aqui, escorar ali, encaixar e tal, quando aparece Bruno na porta da rua, de cueca, sem camisa e todo assustado... Pois é, pois é... ele achou que estavam roubando as bicicletas e se apurou pra surpreender o ladrão... Além de muuito desolé, desolé (sinto muito, sinto muito), acabei por nem colocar a tranca, pois ele enfatizou que não era necessário.

Bem, isto era história pra postagem anterior. Mas como aconteceu depois que eu tinha escrito e publicado... tá aí.

O café da manhã também foi muito bom hoje. Baguetes fresquinhas, geléias da região, frutas. Comemos o máximo possível, pois nossos almoços não têm existido. Arrumamos as coisas, carregamos as bicicletas e fomos nos despedir e pegar ainda algumas informações com Bruno. Aproveitamos pra comprar também uma garrafa de suco de maçã produzido por um amigo deles. Eles mantém na sala de casa uma mesa com vários produtos da região. Embora ontem já tivéssemos passado no mercado e comprado itens pra um lanche de janta (e comprado também um suco de maçã), resolvemos provar. Está aí uma das coisas bacanas de circular pelo interior da França, experimentar os produtos de cada região.


Joaquim aproveitou pra brincar com os três cães queridíssmos nos jardins após o café, o que foi ótimo por que embora pensemos em alguma atividade pra ele todos os dias, é bom vê-lo interagir com outros seres que não apenas nós adultos, né?

Decidimos que hoje faríamos um trecho mais curto, indo direto a cidade de Blois, nosso local de pernoite. Isto significa que não perseguiríamos castelos como foi o caso de ontem, ao passarmos por Chambord. O castelo de Chiverny está há uns 8 km daqui de carro (cerca de 10 pela rota de bicicleta), mas isto implicaria em pedalarmos mais de 35 km hoje. E para cumprir nossas metas nos dois próximos dias, já teremos que pedalar um tanto assim. Indo direto para Blois, faríamos uns dez quilômetros a menos. ok, decidido.

No caminho de hoje, percorremos mais zona rural, passando por plantações, terras aradas, algumas casas rurais de pedra com seus celeiros e também por pequenos vilarejos com suas muitas casinhas e jardins floridos.

O tempo tem ajudado. Tem ficado encoberto parte do dia e outra parte sai o sol. Finais de tarde sempre ensolarados, ótimo pra fotos.



No caminho tinha um bode. Tinha um bode, no caminho.
Ao passarmos por um ponte, uns cavalos andando dentro do riacho.


Embora na região haja muitos castelos, ficou claro pra nós que nosso foco de viagem é pedalar. Inicialmente pensamos em perambular de bicicletas por aí, vendo castelos, mas a lógica do pedal é diferente do motor, pois cada 3 ou 4 km corresponde a um tanto de energia e um tantão a mais de tempo de circulação. Até cogitamos fazer visitas internas em alguns castelos, mas, sinceridade? Percebemos que não é o que temos vontade de fazer neste momento e nem saberíamos o que fazer com as bicicletas carregadas durante uma visita - também não nos esforçamos pra saber, rsrsrs... - estamos mais é querendo pedalar e nos surpreender com o que pode surgir depois de cada curva!

Como por exemplo hoje logo no início de nossa pedalada, quando saímos de Bracieux e, na rota pra Blois, nos deparamos com o Castelo Villesavin, que pode ser avistado da estrada. Além disso, esticamos um pedacinho dentro da propriedade, indo de bicicleta até onde é possível antes de iniciar a visita paga.
Castelo Villesavin

No acesso ao Castelo Villesavin

No caminho pra Blois, passamos por uma pequena cidade chamada Mont-près-Chambord. Quando a atravessávamos, vimos uma placa indicando um balneário. Resolvemos conferir. Chegando lá, vimos que se tratava de uma piscina pública (pagava 5 euros para entrar) que tinha um sistema de tratamento de água todo natural. Tínhamos andando quase 9 km, já era mais de 14h e pensamos que um banho de piscina era bem merecido. Pagamos, entramos, não havia muita gente, uns monitores de colônia de férias ou algo assim com um grupo de crianças, mais outras gentes e famílias, o suficiente pra dar credibilidade pra água e para não nos estressarmos durante a pausa rsrsrs. Água fria, pouco sol, foi ótimo para relaxar e aproveitar o verão daqui, né?


Fizemos um piquenique com o que sobrou do lanche da noite passada e ainda mordiscamos algumas maçãs que roubam... (ops) colhemos num pomar na beira da estrada, alguns quilômetros antes.

Macieiras carregadas por toda parte. A gente TINHA que colher algumas...

Tivemos um pouco de dificuldade pra sair da cidade. A "Loire à velo" é uma rota que possui em sua maior parte uma ciclovia. Existem várias outras rotas na região que também tem indicações por plaquinhas e que, eventualmente, tem ciclovias. Muitas vezes são rotas que utilizam caminhos já existentes (entre ciclovias, estradas compartilhadas, trilhas e estradinha secundárias). Mas a sinalização não é sempre muito clara. E tem rotas que são circulares, daí a atenção pra saber se está indo ou vindo. E algumas rotas se encontram, daí a gente pode estar vindo pela rota 8, que em algum ponto partilha um mesmo trecho com a rota 9, que por sua vez vai encontrar a "Loire à velo". Estamos entendendo melhor todo este sistema ao longo dos dias, e as conversas com nossos hospedeiros foram fundamentais pra isso.



Bem, depois de atravessar Mont-près-Chambord, concluir que estávamos fazendo o caminho de volta a Bracieux, atravessar toda Mont-près-Chambord de volta, pedir informação pra 3 pessoas diferentes, consultar o mapa em papel com as rotas e o google maps offline no celular, acabamos encontrando o rumo e seguindo viagem.

Por fim, acabamos voltando para a ciclovia "Loire à velo" (tipo a rainha de todas as rotas, sendo que ela além de margear o rio Loire tem uma extensão que passa pelo castelo de Chambord). Logo avistamos um grande cruzamento com viadutos e estradas em várias direções e claramente a indicação de Blois. É quase um choque após tanto silêncio e natureza.
Seguindo sempre por ciclovias, não demorou muito para avistarmos a bela cidade à margem do rio Loire, com uma linda vista de suas casas, torres e pontes.



Já quase na entrada da ponte que deveríamos atravessar pra entrar na cidade, achamos uma área super gostosa de piquenique e sentamos lá pra verificar o mapa e ver com maior clareza onde ficava nosso hotel. De fácil acesso, atravessamos a ponte, fomos pela rua central, subimos uma ladeira e voilà: Hotel du Bellay.


O hotel fica em uma casa construída em 1460, bem próximo ao centro histórico e ao castelo, já na parte mais alta da cidade. Ao fazer contato, me assegurei de haver local para deixar as bicicletas e o remorque, o que me foi garantido. A senhorinha da recepção nos deu uma chave e explicou onde deveríamos ir pra deixar as bicicletas. Mas eis que a salinha tinha uma porta estreita e o remorque não entrava de jeito nenhum. Voltamos, conversamos e acabamos conseguindo deixar o remorque num espaço ao lado da sala de café e recepção. Ufa!!!

Como chegamos cedo da pedalada de 25 km, tomamos um bom e merecido banho e saímos pra ver a cidade e comer algo, pois aquele piquenique no balneário foi bem fraquinho. Flanamos pela cidade e fomos tentando lembrar do que vimos e não vimos da visita de 2011. Fotos, muitas fotos, não lembrávamos de Blois ser tão bonita e agitada.
No prédio marrom fininho, na portinha de madeira, nossa garagem pras bicicletas.

Nesta rua principal, a ponte de entrada da cidade alinhada




Fome aumentando, começamos a sondar preços em restaurantes. Numa esquina adiante, avistamos um supermercado que fechava às 20h e já era 19h55. Bem, em Paris já nem nos deixariam entrar, mas conseguimos e nos agilizamos pra pegar itens pro café da manhã que optamos em não pagar no hotel (preço: 6 euros por pessoa - e tivemos a impressão de ser daqueles cafés da manhã típicos de hotéis da Europa, isto é, bem básicos e sem graça, tudo de pacotinho e potinho).

Com as compras na sacola, seguimos por uma das ruas de calçadão exclusiva pra pedestres, com vários restaurantes. Aline foi ver o cardápio na porta de um restaurante e eu e Quim indo ver outro quando ele começa a gritar muito e apontar pra perna: uma vespa asiática enorme grudada nele. Consegui matar o bicho, e Joaquim gritando muito, mas muito forte e dolorido. A impressão que tive foi que a rua toda estava apavorada... deveria estar. Logo um casal, com gêmeas num carrinho, veio ver se podia ajudar (Quim berrando). Ela era brasileira, ele francês com família em Blois. Só seria mais conveniente se fossem médicos, né? Ajudaram como podiam, conversando com Quim, pesquisando no celular vendo o que fazer nestes casos, emprestando o que tinham na bolsa (repelente...). Foram eles que identificaram o bicho e nos tranquilizaram dizendo que não era venenoso. Joaquim estava transtornado e chorou muito, mas concluímos que o insetão de 2 cm começou a picada porém não liberou o ferrão antes de morrer assassinado. Joaquim já estava até rindo quando decidimos seguir adiante pra comer algo. Aline foi dar mais uma olhada nas opções por perto e, fala sério, às vezes a vida parece um filme, como o encontro com esta família que nos ajudou e, vejam só, passando por ali naquela rua, Bruno e Cristelle, nossos hospedeiros! Trocamos saudações, conversamos um pouco sobre o ocorrido com Quim e lá foram eles jantar em Blois.

E nosso jantar? Tudo que vimos estava mais caro do que estávamos dispostos a pagar. Quim alternando crises de choro com descontração, nos levando quase a loucura. Acabamos parando num Kebab e, muito tensos, pedimos algo pra levar. Enquanto isso, conseguimos distraí-lo e comemos ali mesmo numa mesinha, nas embalagens de isopor. Eita jantarzinho especial, né?

(desta última parte não tem fotos, faltou clima para os registros, rsss...)

Joaquim voltou caminhando para o hotel e agora esta fazendo o que já queria fazer desde antes de sairmos pra flanar e procurar comida: assistir desenhos no tablet...

Havíamos planejado assistir um espetáculo de som e projeções de imagens na fachada do castelo, mas juntando o drama  vivido e o cansaço, desistimos. Está agora cada um numa telinha (todos dispensando a TV do quarto), todos largados e relaxados na cama em nosso quarto com janelas abertas com vista pra ruela da frente do nosso hotel que foi construído no século XV.

Vale do Loire de bicicleta - dia 02 de 05

Colocamos o despertador para acordar, tomar o belo café da manhã e aproveitar ainda a piscina para sairmos às 11h, conforme a reserva da hospedagem. Não foi assim tão difícil acordar, e o café compensou, assim como o relaxante banho de piscina aquecida logo de manhã. Nem lembro a última vez que havia tomado banho de piscina de manhã.



Uma das coisas boas de ficar em chambres d`hôte é a hospitalidade e a possibilidade de nos relacionarmos mais diretamente com habitantes do lugar. A hospitalidade é algo cultivado na França, assim como a arte de saber conversar. Então também é uma forma de praticar o idioma além de degustar produtos da região no café da manhã e receber orientações turísticas do pessoal local.

Adoramos a hospedagem no Le Clos Elisa. Ficaria ali uma semana só aproveitando o quarto, a piscina, o jardim e o café da manhã!



Antes de tomar rumo pelas ciclovias da região, demos uma caminhadinha pra ver a cidade. O local é pequeno e não tem muito o que conhecer. Mas ver as pessoas em seu dia a dia num lugar assim nos faz pensar que a vida pode ser vivida de muitas maneiras e em muitos ritmos diferentes.
Ontem a noite, já tarde, quando fui fechar a janela do nosso quarto, que era no segundo andar, vi que a rua estava absolutamente escura. A cidade quase toda já dormia e nem as luzes da rua estavam mais acesas. O céu estava estampado de estrelas prometendo um dia seguinte de tempo bom.

Elisabeth nos apresentou duas opções de ciclovia, uma pela floresta e outra que retomaria o Loire. Saint-Laurent-Nouan na verdade era mais afastado, saindo inclusive da via “Loire à velo” que havíamos tomado de Orleans até Beaugency. Existem muitos roteiros e trajetos sinalizados por toda região. Decidimos então tomar o rumo margeando o Loire. E lá fomos nós, pedalando felizes. Saímos e já passava de meio dia. Café da manhã foi por volta de 10h, então compramos sanduíches de baguete na boulangerie da cidade pra comer mais tarde.

As sungas e maiô molhados, penduramos no remorque pra ir secando no caminho. Super chique!

Bom, o tipo de chão da rota que seguimos foi bem variado: de asfalto liso em meio a plantações e floresta, a uma trilha lazarentinha e esburacada margeando o rio. Mas tudo bem, o dia estava lindo, o sol um pouco tímido, mas sem sinais de chuva ao longo da jornada.



Depois de andar por uns 9 km, fomos chegando à civilização e eis que a placa com o nome do lugar dizia: Saint-Lourent-Nouan! Mas nós tínhamos saído de Saint-Lourent-Nouan!!!

Como assim??? A cabeça deu um nó. Apesar de haver aqui e ali plaquinhas indicando a direção nas ciclovias e em meio às cidades, eventualmente nos bate dúvidas. O mapa das ciclovias da região que Elisabeth nos deu veio bem a calhar. Mas nosso bom amigo tem sido mesmo o google maps, que mesmo sem conexão com internet, nos mostra onde estamos e assim conseguimos ter mais noção dos locais e direções. Mas será que nos enrolamos em meio a nossa felicidade e empolgação e acabamos dando uma volta? Fomos entrando mais no lugar tentando desvendar o mistério. Vimos a torre da igreja e a concluímos que era a igrejinha que visitamos antes de partir: voltamos mesmo!!?. Mas chegando na rua principal, percebemos que não era o mesmo local. Vimos um mercadinho e tabac – coisa que estava fechada em Saint-Lourent-Nouen. Observamos melhor a igreja e rua principal... ufa! Não era a mesma localidade. Fui comprar algo fresco pra beber e créditos pro celular, por que, né, já vimos que pode ser útil... e a primeira pergunta que faço pra atendente, depois de um bonjour, obviamente, foi: Nós estamos exatamente onde??? Resposta: Nouen-sur-Loire, um distrito (comuna) de Saint-Lourent-Nouen, por isso a placa na entrada da cidade... aff....

O trecho mais difícil foi de Nouen para Muides-sur-Loire. Trilha com buracos, subidinhas, dureza pra seguir com um remorque. Numa bici sozinho iria bem. Em Muides voltamos para uma ciclovia melhor e fomos até Saint-Dryé-sur-Loire onde tiramos algumas fotos e fizemos uma pausa em uma área de piquenique na margem do rio, quase embaixo da ponte que vem da cidade de Mer. Por ali, o caminho da famosa via Loire à Velo vinha pra margem de cá rumo ao castelo de Chambord, o que deduzimos ser uma ciclovia melhor do que o pedaço de trilha de terra e mato que pegamos. Já havíamos feito cerca de 15 km e, mesmo tendo feito paradinhas curtas pra tirar foto, beliscar um sanduíche e beber água, seguimos relativamente direto.



Tomamos então o caminho pra um dos castelos mais famosos – e lindos – da região. Um tanto de pedaladas e já avistamos parte do muro de 32 km que cerca o parque. Tomamos o caminho indicado para bicicletas, lamentando não ser a mesma estrada de quem vem de carro, que permite contemplar o castelo de frente enquanto avança em sua direção. Tivemos dúvidas aqui e acolá se estávamos no caminho certo. Até que saímos da área de bosque e avistamos o bonitão. Uma plaquinha indicava bicicletas para adiante, mas um caminho mais curto, que parecia ir mais diretamente, nos chamava. Obviamente tomamos o caminho mais direto... E quando já quase lá, o que tinha no caminho? Uma porteira trancada a cadeado... Ahhhh... Já estávamos com 23 km de pedalada, querendo descansar largados admirando o bonitão... teríamos que voltar? Ao lado do caminho e do portão havia um campo que parecia dar acesso a uma saída desta nossa prisão. Mas uma plaquinha indicava que por ali somente podia seguir para caminhada e não bicicleta. Decidimos que Aline atravessaria os cerca de 400 m de campo pra ver se era viável ir com o remorque. Foi e... tudo certo! Sinal feito de longe, lá fui eu e Joaquim descendo a ladeira de campo em busca da felicidade.



Montamos nosso acampamento bem em frente ao castelo, na vista mais central e privilegiada. Nos largamos lá por um tanto de tempo, fotos, sorrisos, gemidos, uma bebidinha gelada, pés ventilando...
De Chambord até nosso Chambre d’hôte de hoje, ainda uns 10 km. Borá lá então que já era 17h50 e havíamos dito que chegaríamos às 18h30...



De Chambord precisávamos passar por Bracieux e vendo o mapa era uma estrada reta. As indicações de ciclovia iam pelo bosque, um caminho lindo e agradável. A energia já estava baixa, apesar da beleza do local. Em certo momento, vimos apenas a indicação de que ali era um roteiro pra passeios de cavalo, embora o chão fosse semelhante a antes, um chão de terra batida bem plana. Ficamos em dúvida e seguimos, sempre em paralelo com a estrada e os carros. Mais um pouco, indicava para as bicicletas cruzarem a rua e seguirem pelo outro lado pelo bosque, só que em sentido perpendicular. Oi??? Como assim? Nosso amigo Google maps nos confirmava que Bracieux era pro outro lado.... Seguimos um pouco e uma placa indicava Bracieux a 4,5 km. Eita... Resolvemos voltar e tomamos a via de carros mesmo – que delicia um caminho liso de novo! Os carros são bastante cautelosos, o que me deixa mais tranquilo, mas Aline não relaxa do mesmo jeito. Porém o movimento não era intenso, o que nos permitia pegar mais velocidade pra tentar chegar logo ao destino.


Logo chegamos em Bracieux. Combinamos de eu ir a mercado comprar algo pra janta e Aline mandar mensagem que estávamos a caminho. A resposta veio: em 5 minutos estaríamos no destino em Tour-en-Sologne.

Uma das coisas mais agradáveis desde que começamos o trajeto, é cumprimentar a todos que passam por nós de bicicleta com um sorridente bonjour e receber com sorrisos igualmente felizes outros bonjours. Mas também descobrimos um sério problema nesta nossa viagem. A gente se pega quase o tempo todo sorrindo – e isto é um problema pois volta e meia precisamos cuspir insetinhos que insistem em ser devorados pela nossa alegria! Pedalar sem óculos então... nem pensar, pois assim teríamos que tirar mosquitinhos dos olhos também!!

Fizemos hoje cerca de 33 km, tendo saído pouco depois de meio-dia de Saint-Laurent-Nouen e chegado a Tour-en-Sologne depois das 20h.

Já percorremos 71 km pedalando. E estamos apenas no segundo dia.

Vale do Loire de bicicleta - dia 01 de 05

Uma das coisas que sempre admiramos quando perambulamos de carro pelo interior da Europa, são as pessoas viajando em bicicletas. Não somos ciclistas, embora tenhamos amigos e parentes que amam e vivem de bicicleta. Mas tal admiração por eles, tem embutido em nós um certo recalque, talvez por eles experimentarem uma liberdade que somente uma bicicletada traz.

Neste ano, em 2017, ao passarmos uma temporada na Europa, com direito a 5 semanas em Paris, resolvemos aproveitar o verão europeu e nos aventurarmos entre a paixão, o idealismo, a aventura ingênua e a superação de nós mesmos, descobrindo uma França mais natural, silenciosa, ao mesmo tempo histórica.

Depois da disposição em viver esta aventura, era preciso definir um trajeto. Em 2011, estivemos por 3 dias na região do Vale do Loire, visitando castelos. Na época, ficamos encantados com a mistura entre as belezas naturais – e o rio Loire tá com tudo neste critério – e as cidades, vilas e castelos desta região.

Pesquisando, descobrirmos que as margens do rio Loire – o rio mais extenso da França – possuem um projeto chamado Loire à Velo. Por centenas de quilômetros foram feitos trechos de ciclovias criando um roteiro fantástico.

Então começamos a pesquisar mais e a tomar uma série de decisões: partir de onde e ir até onde? Quantos quilômetros aguentaríamos no total? E por dia? Quanto custaria isto? Como fazer com Joaquim? Onde dormiríamos?

Decidimos fazer o trecho de Orleáns a Tours, com cerca de 130 km. Aguentamos tudo isto? Logo nós, humildes sedentários? E em quantos dias?

O tempo que pensamos em dispor pra esta aventura seria de 5 dias. Daria pra fazer uns 25 a 30 km por dia, algo que conversando aqui e acolá nos pareceu não ser tão pesado.
Passamos semanas planejando a viagem. Dividimos o trecho em tantos dias quanto teríamos, tendo assim uma média de perscurso diário. A partir disto, passamos a buscar hospedagens, mais ou menos nestes locais. Em viagens como esta preferimos nos hospedar em Chambres d’Hote, tipo de Bed& Breakfast (casas de pessoas que têm dois ou três quartos preparados para hospedagem como um pousada com café da manhã), geralmente em lugares mais afastados em zonas rurais e vilarejos. Assim, tentamos encontrar alguns que atendessem nossas necessidades de disponibilidade de dias, itinerário, distância e preço! Existem sites específicos deste tipo de hospedagem regulamentada pelo governo. Em geral, são espaços em casa familiares, muitas antigas, cujos donos curtem a arte de receber, e oferecem café da manhã incluso no preço – algo não frequente na França.
Bem, foram semanas de estudo de opções. Aos poucos estabelecemos nosso roteiro considerando ainda a necessidade de pagarmos com cartão de crédito = algo raro em chambres d`hote. Percebemos que alguns tem mantido também um perfil no Airbnb - onde podemos pagar por cartão, postergar a despesa e até parcelar em 3 vezes.

Assim, surgiu nosso roteiro do Loire a velo.

Hoje foi o primeiro dia. E a vitória foi nossa! Um a zero pra nós! E não faltaram pequenos e médios contratempos desde cedo.

Saindo de Paris
Já havíamos comprado as passagens de trem de Paris a Orleans há alguns dias. Levamos em conta pra decidir o horário, os preços de passagem que são variados, assim como funciona com avião. Mas sabíamos que deveríamos chegar cedo pra cumprir um pedaço do trecho que ainda nem havíamos planejado.

Nos enrolamos um pouco pra deixar o apartamento, e quando finalmente dentro do metrô deu um certo gelo: será que conseguiremos chegar em tempo?? Por fim, o tempo deu certinho, tudo bem ajustadinho... Aff.... Daí já neste primeiro momento descobrimos algo que seria permanente nesta aventura: bagagem demais!

Como não somos praticantes de ciclismo, não temos roupas específicas, leves e compactas, de lavagem/secagem rápida em trajeto. São roupas normais e não temos certas manhas pra otimizar a bagagem. Mas, enfim, tudo bem! Estamos numa aventura!!!

Na Gare de Austerlitz encontramos a plataforma e nosso trem. Localizamos nosso vagão (era um dos primeiros, portanto, um dos mais afastados na plataforma de embarque... e nós na corrida rsrsrs). Ao chegarmos em nossos assentos marcados, duas senhorinhas estavam lá. Perguntamos de seus assentos e elas responderam que já tinha alguém sentado lá, expressando bem claramente que ficariam ali. Daí, de repente, 3 ou 4 pessoas ao redor começaram a protestar e argumentar que os assentos eram nossos. Eba!! Rebu!!!
As tiazinhas saíram e nos apropriamos do lugar acomodando tooooda nossa bagagem de seis volumes.

A viagem é rápida, cerca de 1 hora. Chegamos ao meio-dia e meio, e todas as lojas de aluguel de bicicleta estariam fechadas pro almoço. Nos dias anteriores, tentamos contato com 4 estabelecimentos. Um só reabriria as 15h30, e achamos a comunicação meio confusa. Um não respondeu nada. Outro não tinha um sistema de devolução de bicicleta em Tours. E o outro era cerca de 6 km distante da estação de trem. Com este havíamos conseguido comunicação mais fácil, mas enviamos o pedido de reserva apenas à 1h40 da madrugada anterior.

Saímos da estação de trem e ainda não tínhamos certeza de onde alugar as bicicletas. O objetivo primeiro era ir ao um Office de Tourisme pra tentar ter mais informações da região. E o escritório ficava ao lado da Catedral de Orleans, no centro. Foi uma caminhadinha curta, aproveitando pra ver a cidade. Não encontramos um mapa em papel do caminho “Loire à Velo”, mas conseguimos alguns panfletos dos principais castelos da região.




Aproveitamos para visitar o interior da Catedral. Já havíamos passado pela região em 2011, numa viagem de carro de 3 dias. Ainda temos na memória alguns castelos principais, e Orleans foi também uma passadinha rápida naquele ano. A configuração interna da catedral é muito interessante, com seus múltiplos ambientes e áreas de circulação e com uma altura imensa.

Decidimos, por fim, pegar as bicicletas no lugar para onde havíamos enviado um e-mail de reserva. Olhando no mapa de papel, parecia a mesma distância do outro local que abriria somente às 15h30. Então tomamos rumo com toooda nossa bagagem e fomos por uma zona central principal com casas antigas. Resolvemos parar pra comer um kebab por ser algo rápido e barato. Já havíamos acompanhado os preços dos restaurantes ao longo do caminho, preços mais baratos que em Paris.
Fomos então andando, andando, andando, andando até chegar à tal loja. Surpresa! Era mais distante que achávamos e, por fim, chegamos lá pouco depois das 15h30. O rapaz (Franck) quando nos viu, deu uma bufadinha francesa e disse que estava nos esperando desde às 14h. Estava terminando de vender uma bicicleta e ficamos esperando cerca de 20 minutos até ele terminar com o cidadão e nos atender.
Indo alugar as bicicletas em Orleans

Ele já tinha em e-mail o que pedíamos, e começou a preparar as bicicletas e tal. Encurtando, até estarmos pronto pra sair de lá, já era 17h. Verão europeu, sol alto (havia ficado bem nublado quando chegamos em Orleans), não nos preocupamos com o escurecer. Ele perguntou se já tínahamos hospedagem e dissemos que era em Saint-Laurent Nouan – ao que ele fez uma cara e deu mais uma bufada. Disse que seria um bom trajeto até lá.

Havíamos combinado por e-mail de chegar às 18h30 na hospedagem. No site eles diziam pra avisar e que o horário de check-in era entre 17h e 19h. Pedimos ao Franck se ele poderia emprestar o telefone (por que apesar de termos comprado números franceses estávamos sem crédito –eita burrada) pra avisar a hospedeira que nos atrasaríamos. Ele mesmo falou com ela a nosso pedido, dizendo que estimava que chegaríamos por volta das 19h30.

Já saindo, deu um probleminha num dos pneus, de tão inflado. Mais uns minutinhos. Franck nos explicou de novo como acessar a ciclovia “Loire à velo”. Perguntamos se havia um local pra comprar água no caminho. Ele nos olhou admirado e perguntou: Vocês ainda não compraram água? Nos explicou um lugar longe e complexo. Por fim, disse que talvez teria um lugarzinho ali perto, mas que, devido ao verão, talvez estivesse fechado de férias. Decidimos que Aline iria sozinha de bicicleta até lá, pra ser mais ágil. Mais uns minutos e Aline chegou com água e comida. Enfim, tomamos caminho. Pedalamos uns metros. Pausa pra pegar os óculos de sol e boné, por que o sol resolveu aparecer. Pedala mais uns metros, outra pausa, pra certificar o caminho. Enfim, tomamos rumo, margeando o rio por Orleans. Um caminho muito agradável. Realmente, Orleans deveria ter ganhado ao menos um meio dia nesta viagem.

Tá, saímos ainda mais tarde que planejado. Cerca de 17h30 e tínhamos mais de 30 km pra vencer no dia. Ou seja, não chegaríamos até às 19h30.


Depois de percorrer o trecho inicial margeando o rio Loire através de Orleans, fomos nos afastando da cidade e cruzamos a linda ponte Europa, estaiada, branca, com vista admirável sobre o rio. Fomos seguindo indicações por plaquinhas ou impressões no chão da ciclovia ou indicações de “piste ciclable”. De Orleans até Meung-sur-Loire seguimos por asfalto, a maior parte vias exclusivas de bicicletas, mas algumas vezes partilhamos de ruas normais, sentindo muito respeito dos carros ao nos ultrapassarem – aliás, já percebíamos que desaceleravam antes de nos passarem.




Em Meung-sur-Loire, precisamos atravessar a ponte (também linda) e mudamos de margem. O caminho a seguir era de chão, tipo de terra batida, bem liso mas rústico. No meio do caminho, nos deparamos com algo raro. Parecia cena de algum filme. Percorrendo a estradinha no meio da floresta, começamos a ver pessoas e carros e umas construções. Gente de idades variadas, mesas ao ar livre, luzinhas dependuradas, um piano parcialmente enterrado no gramado, uma tenda de circo, o clima era de festa... são coisas que me lembro. A travessia por ali durou poucos segundos e a vontade de parar e descobrir aquele mundo fantástico permanecerá misterioso em nós.

Ao chegarmos em Beaugency, uma cidadezinha cheia de atrativos arquitetônicos, abordamos uma mulher e explicamos nossa situação, pedimos se ela poderia emprestar o celular. Ligamos pra nossa hospedeira para dizer onde estávamos e que chegaríamos atrasados. Evidente, né? Já eram quase 20h20 e ainda faltava uns 8 a 10 km.

Beaugency recebeu apenas um olhar triste, do tipo “melhor nem ver”. Mas nos pareceu interessante. Atravessamos a linda e longa ponte de pedra sobre o rio Loire com um sol de fim de tarde. Na pausa do telefone, revisamos o itinerário e vimos que seria preciso tomar uma estrada sem ciclovia, usada por carros. Sem acostamento, o lance era ir pelo cantinho. A certa altura, Aline viu que teria uma via secundária mais tranquila e que cortaria um pouquinho o caminho. Bora por lá! O dia já estava com seu resto de luz, horizonte corado, mas ainda claro.


Foi daí que, numa mudança de marcha, a correia de minha bicicleta escapou e travou. Pára tudo! Puxamos as bicis pra fora da via (nesta havia espaço ao lado, não acostamento). Tentamos resolver, mas precisaríamos de algo tipo uma chave de fenda pra desentravar a correia.

Aline fez sinal pra um carro que passava e ele parou. Um casal de ingleses com duas crianças pequenas. A dificuldade de comunicção foi enorme, mas conseguimos nos entender. Eles não tinham nada de metal que pudesse ajudar. Tentamos juntos, o pai e eu, mas estava claro que só mão não bastava. Eles ofereceram carona e tal, mas agradecemos e eles foram.

Decidimos ir andando mesmo. Pelos cálculos faltava pouco, máximo 4 ou 5 km. Aproveitei as descidas e com isso o percurso acelerava um pouco. Caímos em outra via mais movimentada, a noite já chegando. Aline deu uma acelerada e foi a frente vendo se encontraria alguém que pudesse ter alguma ferramenta, mas com a escuridão crescente, seria preciso ter luz para um exame da correia.
Decidimos que Aline iria pedalando na frente pra tentar localizar o Chambre d`hôte, pois já víamos sinais urbanos, estávamos perto.

Mais uns metros e vi Aline conversando com alguém num carro que logo se aproximou de nós, era Allan, o marido da anfitriã. Eles ficaram preocupados com nossa demora após o telefonema e ele estava vindo nos procurar... assim, sem nem nos conhecer, nem saber nossa cara, hábitos etc. Foi muito bom sentir este cuidado e atenção por parte deles. Allan foi na frente, guiando, e logo chegamos a "nossa" casinha querida.

Foram 38 km em cerca de 3h40. Chegamos já por volta de 21h30 e a noite já estava feita.

Allan conseguiu arrumar a correia com algumas ferramentas. Elisabeth nos recebeu super bem, nos mostrou casa, o quarto. Uma habitação antiga mas toda reformada. Quarto espaçoso, cama grande, chuveiro maravilhoso (Le Clos Elisa). Tomamos um bom banho e fomos fazer nosso lanche numa mesa no jardim da casa, apreciando a noite que não era quente, mas agradável e festiva para nós mortais.


Pra dormir feliz

O dia acabava. Ainda baixamos fotos e sorrimos felizes. Diversos pequenos contratempos mas conseguimos levar tudo com bom espírito e sabor de aventura e conquista.


O dia 1 findou. E nós vencemos o desafio.               

Provins, França

Adoramos Paris. Muito! Mas desde que descobrimos o interior da França, suas pequenas vilas e cidades medievais, passamos a adorar desbravar este mundo e viajar no tempo, vendo novas paisagens e ampliando horizontes.

Provins é uma cidade que está há cerca de 80 minutos de trem de Paris. Descobrimos recentemente que ela se localiza dentro da zona 5 do transporte da região de Paris. (Aqui você pode ver melhor este lance das zonas: https://www.ratp.fr/plan-rer-et-transiliens) Para circular de Paris por/para cada zona, o valor da passagem é diferente. Porém, recentemente, o passe Navigo (cartão semanal ou mensal que dá direito a andar em todos os meios de transporte público de Paris e região: bus, metrô, bonde, RER e trens) passou a abranger, pelo mesmo preço que andar dentro de Paris e periferia mais cercanias (zonas 1 e 2), todas as 5 zonas sem custo adicional. Perfeito!

Estando em Paris por algumas semanas entre julho e agosto de 2017, programamos uma semana para circular por cidades vizinhas de Paris. Estivemos então em Épinay-sur-Seine, ao norte; Sceaux e Fontainebleau, ao sul; e Provins, ao sudoeste (Disney Paris tava na lista, mas faltou energia na semana). Tudo por conta do Navigo.

Pegamos o trem na Gare de l'Est, e seguimos a Provins. Lá, desembarcamos e fomos em busca de um Office de Tourisme. Tinha visto pela internet que havia um próximo à cidade antiga e lá fomos nós flanando pela cidade pra obter um adorado mapa em papel e informações sobre o local. 

Fomos nos achando e nos perdendo, muitas fotos aqui e acolá, pedindo algumas informações, indo até cansar e chegar no alto da cidade e encontrar o tal do Office de Tourisme.

Vista desde a cidade baixa.

Na parte baixa da cidade, a mistura de arquitetura antiga, flores, alguns riachos e uma cidade em sua vida.

Nos perdermos pela cidade baixa nos permitiu ver para além da parte mais turística, tanto que em várias ruas éramos nós e alguns moradores apenas.


O tempo está por tudo: "Hospedaria da Cruz de Ouro fundada em 1270 - Boa mesa."

Para chegar ao escritório de turismo, atravessamos uma parte da cidade medieval mais turística e saímos pela muralha. Achamos o tal Office e tomamos informações sobre locais de visitas e espetáculos que haviam. Já passava de meio-dia, a fome batendo, resolvemos sentar num dos restaurantes na pracinha central da cidade murada (Place du Chatel) e almoçar. A garçonete logo foi avisando que iria demorar. Mas tudo bem, a fome não nos deixaria seguir pelo dia, precisávamos descansar um pouco, e o tempo presente em cada pedra da cidade nos dizia para relaxar. Afinal, um lugar que passou a ser edificado antes do século IX d.C. deve ter algo a nos ensinar sobre o tempo.

Porte Saint-Jean
Há quatro visitas pagas na cidade, cada uma custando em média 4 euros: Torre de César; Subterrâneos e o Hôtel-Dieu; Museu de Provins; e La grange aux dîmes (casa medieval com manequins e cenografia para visita com audioguia). Se pagar pelo passe que dá direito a entrar em todas, custa 12 euros. Considerando o tempo e que também queríamos assistir um dos espetáculos (por que não daria tempo de assistir os dois espetáculos - um com águias e outro com cavalos e cavaleiros-, fazer alguma visita e ainda almoçar), optamos por visitar o subterrâneo e a Torre de César.
mapa de Provins
Decidimos começar pelo subterrâneo, que já havíamos passado na frente ao subirmos pra cidade medieval. Mas não resistimos em ir fotografando muito na descidinha até lá. Ao chegarmos, descobrimos que a visita do horário já havia começado e que a seguinte estava já lotada.... Um pouco de frustração pela nossa falta de programação, mas fomos tomar a cidade! Resolvemos visitar então o Collegiale de Saint-Quiriace, do século XII, atentos ao seu exterior imperativo na paisagem urbana em seu interior que, como todas estas igrejas francesas,é imenso e imponente.



Púlpito em madeira entalhada. Impressiona os arcos ogivais e a dimensão da nave.

Dali fomos pra visita da Torre de César, o xodó da cidade, também iniciada no século XII, com diferentes etapas de ampliação. Já no começo há painéis mostrando a evolução e ampliação da edificação ao longo do tempo. Fomos seguindo corredores, salas maiores, escadas e escadinhas (algumas que às vezes nos perguntamos como alguém consegue passar por ali), olhando por janelas e janelinhas, vendo diante de nós a paisagem longínqua e a cidade ao redor.
No final, há um vídeo contando a história do prédio utilizando ilustrações em estilo medieval.

Tour Cesar

Detalhe da Torre de César.

Vista desde o alto da Torre de César.
Vídeos contanto a história da cidade e da construção da torre.
Há indícios de ocupação humana no local desde o paleolítico. Como cidade, Provins é considerada como a terceira criada na França, depois de Paris e Rouen. Estima-se que no século X ela tinha 80.000 habitantes. É mole?

De olho no relógio, seguimos para o espetáculo Les aigles des remparts [As águias das muralhas]. Com as muralhas como cenário de fundo, o espetáculo inclui a presença ainda de alguns outros animais como dromedário, cavalos e lobos. Com figurinos variados, trilha sonora e diferentes dinâmicas (com textos e músicas mais emotivos ou cômicos), com alguns vôos rasantes sobre o público, arrancando suspiros e sorrisos, foi muito bonito o espetáculo. São diferentes aves de rapina, de águias e falcões, à corujas, abutres e outros mais. O chuvisco durante o espetáculo não chegou a atrapalhar. Valeu os 12 euros para adultos e 8 euros para crianças.





Após o espetáculo, a saída atravessa o local onde os animais vivem, o que permite ver os animais mais de perto, saber seus nomes e locais de habitat natural.
Não poderíamos ir embora de Provins sem andar um pouco sobre as muralhas. Um pouco ali perto, vimos uma subida (próximo a Porte de Jouy), que nos dava uma visão do alto tanto do exterior quanto do interior em nova perspectiva. 
Torre de César e Collegiale de Saint-Quiriace visto desde o alto a Porte de Jouy com um chuvisco
Descemos a muralha e continuamos acompanhando-a um pouco. Já não haviam mais turistas e seguimos tranquilos pelo Trou au Chat até vermos esta outra porta de saída lateral cujo caminho ainda levava convidativo a longe.


O trem para Paris é de hora em hora, e tendo ainda tempo, resolvemos voltar a pé, mesmo sabendo de um ônibus que poderíamos tomar ali perto do Office de Tourisme. Com isso, ainda entramos em alguns comércios vendo objetos rústicos decorativos e a livraria medieval, especializada no assunto. Ao passarmos pela Place du Chatel, o comércio já estava fechado e não passava muito das 18h. Considerando que é verão, e nestes dias tem escurecido por volta de 22h...

A Livraria medieval é descendo uma longa escadinha por esta porta... muito bonita.
No caminho, já na cidade baixa, compramos uns lanchinho num supermercado e seguimos pra Gare (estação de trem). Foi daí que vimos que logo ali havia outro Office de Tourisme. Enfim, teríamos ganhado um pouco mais de tempo se tivéssemos ido ali logo na chegada, mas provavelmente perderíamos a parte mais viva de Provins, ficando nesta parte mais turística medieval.

Provins tem um calendário de eventos, atividades e espetáculos em torno dos temas medievais. Vale a pena conferir. Existem diversas cidades na França com festas medievais muito bacanas, como também a de Laon, cerca de uma hora e meia de Paris ao nordeste, na região de Champagne.
Nem de perto esgotamos Provins. Acho que valeria a pena voltar, e chegar mais cedo!

Site do Office de Tourisme de Provins: http://www.provins.net/fr/site-officiel-de-loffice-de-tourisme.html

Diário de Viagem Machu Picchu - Um destino especial, surreal e transcendental!

Sabe aquele mal de viajante? Aquele cujo sintoma é nem estar de volta ainda e já pensar no(s) próximo(s) destino(s)? Com Machu Picchu foi assim. Era janeiro de 2008 e estávamos navegando pelo Rio Amazonas, em algum ponto entre Manaus e Santarém, quando conhecemos Pépe e Ana, ele professor de Tênis equatoriano, ela médica brasileira. Estávamos conversando sobre nossa vontade de conhecer Galápagos, no Equador, quando Machu Picchu surgiu na conversa. Prontamente os dois afirmaram: "mas se é pra escolher entre um e outro, vão pra Machu Picchu primeiro!!!". Talvez a convicção com que os dois falaram tenha contado na hora da decisão e alguns meses, pesquisas e definições depois, lá fomos nós! Meio ano depois, em julho de 2008 embarcamos para Lima, onde começou nossa aventura!

Seja porque é o sonho da vida conhecer, porque alguém deu a dica ou porque a passagem está barata, qualquer que seja o motivo, sempre vale a pena!! Um mês antes de partir estávamos com as passagens nas mãos, roteiro rascunhado e muita vontade de colocar o pé na estrada. Claro que quando se começa a ler sobre o Peru, dá vontade de conhecer tudo: Lima, Cusco, Machu Picchu, Vale do Colca, as Linhas de Nazca, Lago Titicaca e por aí vai. Nós queríamos fazer tudo, mas em 11 dias é impossível. Então entre votos e dorzinhas no coração, o Vale do Colca e o Lago Titicaca caíram fora. As Linhas de Nazca ficaram em stand by, pra ver se rolava.

E este foi nosso diário de viagem, com registro diários dessa aventura deliciosa (clicando nas flechinhas no canto inferior direito, a imagem aumenta):